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Cooperativismo, uma causa relevante!, por Ênio Meinen



Ênio Meinen*


As organizações de natureza cooperativa são as únicas iniciativas socioeconômicas alicerçadas em doutrina de aplicação universal, baseada em valores e princípios, cujas diretrizes convergem para a edificação de um mundo mais equitativo (justo) e inclusivo.


Nesse modelo empresarial que se origina de uma necessidade da sociedade, o ser humano é o centro das atenções, enquanto o capital é mero insumo para a construção de soluções de uso compartilhado entre os donos do empreendimento coletivo. Os resultados, orientados pelo equilíbrio e pela isonomia, são de cada um na proporção de seu esforço e de sua fidelidade à organização. Em síntese, nesse formato não se cogita de transferência de renda ou riqueza do menos para o mais favorecido, uma vez que inexiste separação – o antagonismo clássico – entre dono do negócio/do capital (empresário) e cliente (consumidor).
 

Têm-se, numa mesma pessoa, proprietário e usuário. Por isso, não se falar em “lucro”. Todos, enfim, como empreendedores cooperativos, prosperam segundo a intensidade de sua cooperação ou de seu trabalho.


Diante de sua inserção comunitária, uma vez que as cooperativas são empresas do lugar, de proximidade, o cooperativismo está naturalmente vocacionado para fazer o bem nos locais em que está estabelecido, rigorosamente alinhado com o 7º princípio universal do movimento (“interesse pela comunidade”). Há, pois, uma preocupação de gerar progresso conforme a aptidão das populações e de acordo com o potencial econômico da região assistida (a cooperativa atua como braço econômico do núcleo social), compromisso que leva à melhoria da qualidade de vida de todos os cidadãos lá fixados, associados ou não.


Ou seja, o fato de a cooperativa impulsionar o desenvolvimento local e de assegurar o reinvestimento dos recursos nas comunidades de origem, criando um círculo virtuoso, leva à geração de novos empregos, ao aumento do consumo e, por via da elevação das receitas tributárias, amplia a capacidade de investimento em saúde e na educação das populações residentes.


Nesse sentido, levantamento conduzido pela Organização das Cooperativas Brasileiras – OCB (www.brasilcooperativo.coop.br), tendo como referência dados divulgados pelo PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, autoriza a concluir que o IDH – Índice de Desenvolvimento Humano apresenta melhores resultados em municípios nos quais o cooperativismo se faz presente. Em projeção nacional, os estudos indicam um IDH médio de 0,701 para o conjunto de municípios atendidos por cooperativas e de 0,666 para os não servidos (a referência 1 – quanto mais alto, melhor).


Aliás, pode-se afirmar que, nesse modelo organizacional, o social se confunde com o econômico (manifesta-se uma espécie de “dois em um”). Essa reunião de propósitos foi bem traduzida pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso que, em pronunciamento na cerimônia de abertura do Rio Cooperativo 2.000 (4 de dezembro), proclamou: “A cooperativa, como uma empresa, caracteriza-se por aliar diretamente, na mesma organização cooperativa, dois aspectos fundamentais do desenvolvimento sustentável: a racionalidade econômica e o sentido da solidariedade social. Um híbrido de empresa e organização do terceiro setor, uma empresa com coração”.


É dizer que representam empresas diferentes e constituem o modelo antecedente, a origem, o cerne do que se convencionou chamar de economia colaborativa, compartilhada ou ainda de rede, tão prestigiada e difundida atualmente pelo mundo. A conexão, aqui, se estabelece por características como: i) estrutura e outros recursos compartilhados (investimentos otimizados) para o atendimento, gerando economia para os usuários; ii) propriedade compartilhada do empreendimento (cada participante se torna um pequeno empreendedor); iii) decisões (o que e como) compartilhadas entre os usuários (empoderamento do consumidor); iv) soluções compartilhadas por meio da ajuda mútua (troca de serviços – quem tem empresta para quem não tem, por exemplo) e v) resultados compartilhados entre os usuários-proprietários. A reputação e a confiança são outros dois aspectos-chave comuns a ambas as iniciativas. Daí a legitimidade e conveniência do emprego das locuções economia da cooperação ou economia da mutualidade.


Cooperativismo, em síntese, na definição de Robert J. Shiller (Nobel de Economia em 2013) é sinônimo de “boa sociedade” (Segunda Cúpula Mundial do Cooperativismo. Quebec, Canadá, 7 de outubro de 2014).







* Ênio Meinen, advogado, pós-graduado em direito (FGV/RJ) e em gestão estratégica de pessoas (UFRGS), e autor/coautor de vários artigos e livros sobre cooperativismo financeiro – área na qual atua há 32 anos -, entre eles “Cooperativismo financeiro: percurso histórico, perspectivas e desafios”. Atualmente, é diretor de operações do Banco Cooperativo do Brasil (Bancoob). (*) Conteúdo com subsídios do (futuro) livro “Cooperativismo financeiro – virtudes e Oportunidades: ensaios sobre a perenidade do empreendimento cooperativo” (lançamento em setembro de 2016, durante o 11º Concred, no RJ).Este artigo foi publicado na revista Gestão Cooperativa (nº 78)


Artigo originalmente publicado no site da OCB (link).




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